segunda-feira, 4 de junho de 2018

Reflexões sobre a Ciência do Esporte

A Ciência do Esporte abrange diversas áreas do conhecimento que visam entender e otimizar o desempenho esportivo, pode ser tida como o processo científico utilizado para orientar/guiar a prática esportiva, visando o alcance do desempenho máximo. A investigação no âmbito esportivo tem (ou deveria ter) como objetivo principal a utilização do conhecimento científico, considerando a melhor evidência disponível, no ambiente apropriado, para um determinado atleta, com intuito de maximizar o seu desempenho. O profissional atuante hoje nessa área, conhecido como cientista do esporte, possui a premissa de promover a inovação com a expectativa de que isso se traduza em uma vantagem competitiva. Porém, se o papel exercido é relativamente simples, como a tarefa de coletar dados, por outro lado, é extremamente complexa ao tentar relacionar/integrar esses dados com o treinamento. Ao tentar garantir que as evidências científicas sejam levadas a cabo no dia a dia de atletas, treinadores, usuários e profissionais envolvidos no contexto esportivo e do exercício, torna-se imperativo que estudos futuros sejam  melhor absorvidos pelo cotidiano do esporte e do exercício.

Esse questionamento incita o velho dilema: teoria vs. prática, onde a transferência do conhecimento científico para a prática ainda é muito baixa. Diante deste cenário, segue abaixo algumas recomendações para minimizar essa distância:


  1. inserir os professores/ educadores na prática, com intuito de reforçar suas habilidades e vivenciar o cotidiano;
  2. promover o intercâmbio e a troca de experiências entre o professor/educador e o profissional de campo. Nesse sentido, um modelo que vem sendo testado em algumas instituições, tem como base a contratação de profissionais que são alocados nas duas posições (professor/educador e prático) por determinados períodos de tempo. O professor/educador atua como no campo prático durante um período e o prático como professor/educador no ano seguinte;
  3. reestruturar a formação universitária e estimular a educação continuada no ambiente de trabalho. O aprendizado baseado em problema e a prática baseada em evidência, incitando o pensamento crítico, são ressaltados como estratégias que devem ser mais incentivadas.



Outro questionamento que tem evoluído no esporte é a relação entre a ciência do esporte e os treinadores, apesar da crença de que a ciência do esporte não atende as necessidades do campo prático, ambos os grupos parecem ter a mesma percepção sobre a importância e a aplicação da pesquisa científica; concordam sobre o desenvolvimento conjunto de metodologias para determinar as perguntas centrais das pesquisas e convergem em relação às competências que treinadores e cientistas deveriam apresentar para atuar no âmbito esportivo. Além disso, esses profissionais destacam que o conhecimento gerado precisa ser divulgado de forma mais acessível.

Nesta direção alguns países como o Canadá e a Austrália por exemplo buscaram respostas relacionadas, aplicando questionários estruturados com usuários, delineado pesquisas para examinar como o conhecimento científico produzido com o esporte era transferido para os treinadores de elite. Os treinadores canadenses responderam ao questionário, reconhecendo a importância da ciência para o cotidiano do esporte de rendimento. Contudo, o resultado do estudo também demonstrou a existência de lacunas entre as especificidades dos treinadores, no que concerne aos aspectos técnicos e táticos. Os treinadores apontaram ser mais inclinados a buscar informação direto com outros treinadores de forma mais simples e aplicada, diferentemente os pesquisadores do esporte utilizam suas publicações como meio de divulgação do conhecimento adquirido, e parecem assim estar distantes como fontes de informação. As principais barreiras ressaltadas para o acesso ao conhecimento científico por parte dos treinadores foram o tempo e a linguagem. Como também pode ser identificado a dificuldade de acesso por parte dos pesquisadores ao ambiente esportivo.  

Contrariamente o esporte de rendimento necessita de inovações que busquem o entendimento do detalhe, que identifique diferenciais no treinamento, que em última análise acelerem a busca das empresas por novos dispositivos que sejam úteis ao monitoramento do exercício. Recentemente pesquisadores Australianos ilustraram o impacto do avanço tecnológico sobre o cenário esportivo e da prática de exercícios. Os pesquisadores ressaltam que na era da tecnologia, com a crescente utilização de diversos dispositivos e equipamentos, o acumulado de dados e de informações é enorme. Entretanto, os mesmos não são claramente analisados, interpretados e integrados aos treinadores/atletas e ou usuários, de forma a permitir tomada de decisões diárias. Permitir a aprendizagem como um processo incremental nas tecnologias emergentes de monitoramento do exercício parece ser o desafio que temos a frente, pois podemos avançar na simples ideia de mudança de comportamento e ou aprofundar no auto-conhecimento.



Referências:


Viveiros L, Moreira A, Bishop D, Aoki M. Ciência do Esporte no Brasil: reflexões sobre o desenvolvimento das pesquisas, o cenário atual e as perspectivas futuras. Rev Bras Educ Fís Esporte. 2015; 29(1):163-75.


Reade I, Rodgers W, Hall N. Knowledge transfer: how do high performance coaches access the knowledge of sport

scientists. Int J Sports Sci Coach. 2008;3:319-34.


Coutts AJ. In the age of technology, Occam’s razor still applies. Int J Sports Physiol Perform. 2014;9:741.


Fors Vaike, Pink Sarah. Pedagogy as Possibility: Health interventions as digital openness. Soc Sci-Fi. 2017:6:59.